AUTISMO AINDA É MISTÉRIO PARA OS MÉDICOS

Algumas áreas da medicina ainda despertam mais dúvidas do que esclarecimentos para a grande maioria das pessoas, e são temas de incansáveis estudos. A psiquiatria, responsável por tratar todos os tipos de problema mental, é uma delas. Principalmente quando se fala em males menos conhecidos, como o autismo, um transtorno de comportamento, sem cura, que se manifesta em crianças até os três anos de idade e compromete seu desenvolvimento.

Com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre essa síndrome, foi realizado em Porto Alegre (RS), no final de abril, o 1º Encontro Brasileiro para Pesquisa em Autismo, que reuniu especialistas de várias partes do mundo. De acordo com o presidente do evento, Rudimar Riesgo, neuropediatra e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “esse tipo de reunião é importante para que os profissionais que trabalham com o autismo possam trocar informações a respeito do diagnóstico e tratamento.

– Conseguimos formar uma rede, uma parceria com vários médicos. O entusiasmo de Riesgo é compreensível. Ainda hoje, sabe-se muito pouco sobre as causas do autismo, apesar de haver um consenso entre a classe médica de que vários fatores estariam envolvidos no seu surgimento, entre eles genéticos, ambientais e clínicos (infecções durante a gestação). Mas ninguém sabe, exatamente, quais são eles.

O autismo foi descrito pela primeira vez em 1943, quando o psiquiatra austríaco Leo Kanner acompanhou 11 crianças que apresentavam séria dificuldade em se relacionar com outras pessoas. Apesar de não haver um estudo epidemiológico no Brasil, acredita-se que a incidência seja a mesma da encontrada no resto do mundo, que é de um caso para mil nascimentos. O que se sabe também é que a síndrome afeta mais as crianças do sexo masculino, na proporção de quatro meninos para uma menina.

Como entender o autismo

O autismo não é uma doença. É chamado de transtorno, ou síndrome, porque tem várias causas envolvidas em seu surgimento e vários sintomas. Devido a essa complexidade, seu diagnóstico é muito difícil. Nem todos os médicos estão treinados a identificar o problema. A dificuldade aumenta ainda mais porque não há um exame laboratorial que revele o autismo. Todo o diagnóstico é realizado dentro do consultório, com exames clínicos. Segundo Gustavo Giovannetti, psiquiatra da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), “nos últimos anos, houve um aumento de interesse dos médicos, no Brasil e no mundo, para as pesquisas e os tratamentos.

– Mas ainda é muito aquém, não supre a demanda. O diagnóstico se baseia em um conjunto de sintomas apresentados pela criança – em maior ou menor intensidade. Os principais são a dificuldade em se relacionar socialmente, ausência de comunicação e desvio na capacidade imaginativa, ou seja, o autista é incapaz de se colocar no lugar do outro, de imaginar uma solução para um problema e entender brincadeiras de faz de conta. Essas três características fundamentais são chamadas de tríade.

Dentro dessa tríade, há as particularidades. O autista tem aversão ao contato físico e a manifestações de carinho (até mesmo por parte da mãe), não apresenta linguagem verbal e gestual, isto é, não responde a estímulos, não consegue manter contato visual e não manifesta expressões faciais ou emoções (não significa que não tenha sentimentos) e apresentam comportamentos repetitivos.

Além disso, há um atraso no desenvolvimento físico e intelectual. Alguns autistas apresentam agressividade, não falam e dependem da ajuda de outra pessoa para se alimentar, tomar banho e se trocar. Tudo vai depender do grau do distúrbio. Por outro lado, há crianças que não tem comprometimento mental e manifestam interesses excessivos por determinados assuntos, como dinossauros, matemática e computação, aparentando uma inteligência acima da média. Essas crianças têm síndrome de Asperger, um tipo de autismo mais leve. E há os autistas que aprendem técnicas para conviver em sociedade e levam uma vida normal.

De acordo com Giovannetti, “o transtorno tem início na idade infantil, nos primeiros anos de vida"

– Em muitos casos é possível notar a falta de interação com família ainda de bebê. Nesses casos, é comum notar um desconforto da criança no colo da mãe, a falta de interesse em brinquedos e em sons e também o fato de a criança não fixar o olhar em nada e em ninguém. Foi o que aconteceu com o filho de Ana Maria S. Ros de Mello.

Quando Guilherme nasceu, ela já era mãe de outras três crianças, por isso, achou estranho o olhar descoordenado e a postura corporal do bebê. Ana levou o filho, hoje com 31 anos, a vários especialistas, pensando que se tratava de um problema visual. Ela só recebeu o diagnóstico de autismo quando ele estava com cerca de três anos.

- Naquela época não havia muita informação. Os médicos não sabiam exatamente o que fazer. O médico que atendeu meu filho nos aconselhou a reunir outros pais de autistas para criar uma organização. Há 27 anos fundamos a AMA (Associação de Amigos do Autista).

Os principais tratamentos para o autismo

A maioria dos tratamentos inclui métodos de reabilitação, como terapia ocupacional, terapia comportamental, fonoaudiologia e, em muitos casos, o uso de medicamentos. Geralmente são usados antidepressivos e anticonvulsivos para controlar alguns sintomas como agitação, movimentos repetitivos e agressividade. É o tipo de acompanhamento que a AMA, em São Paulo , oferece às 180 crianças e jovens que estão sendo atendidas atualmente. Letícia Amorim, psiquiatra que atende as crianças da AMA, diz que “há um programa especial para tratar problemas comportamentais, como o balanço de mãos e a agressividade”. Todos os cem funcionários e os cerca de cem estagiários, das quatro unidades, são treinados a lidar com as crianças.

Um dos alunos da AMA é Guilherme, de seis anos de idade. Sua mãe, Marta Jesus da Silva Lima, de 23 anos, conta que teve uma gestação normal e só percebeu que havia algo estranho quando o garoto completou dois anos. Ele parou de falar, começou a andar somente nas pontas dos pés e passou a evitar a companhia de outras pessoas. - O Guilherme ainda não fala, mas seu comportamento melhorou muito depois que veio para cá, há dois anos. Antes ele era agressivo e usava fraldas, coisas que ele não faz mais. É difícil, toda mãe quer um filho perfeito, mas temos de arregaçar as mangas e ir à luta. Eu quero que ele seja independente.

Os mitos e as promessas da medicina para entender melhor o autismo  

Muito se especulou a respeito das causas do autismo, e algumas teorias provocaram pânico em muitas famílias. Ainda hoje, há grupos de pessoas que apontam a vacina da rubéola como a responsável pelo surgimento do transtorno. Adailton Pontes, neurologista infantil do Instituto Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz, afirma que “essa hipótese já foi abandonada há tempos. – Vários estudos provaram que ela não é verdadeira.

Ele diz que também são falsas as afirmações de que o autista vive em seu próprio mundo e que não tem sentimentos nem emoções. - Isso é incorreto. As crianças não têm um mundo próprio, elas têm dificuldade em compreender o mundo social, aquilo que se passa entre as pessoas. O autista não sabe como agir socialmente, mas isso não faz com que ele crie uma sociedade interna. Ele tem é uma confusão dentro da mente.

Para quem está envolvido diretamente com os mistérios do autismo, há alguns estudos que prometem ajudar no entendimento do transtorno. Um deles aposta na genética e indica que há 20 genes envolvidos no autismo. O desafio, agora, é conseguir descobrir como e de que maneira eles agem. Outra linha de pesquisa que está sendo explorada, segundo Pontes, é a que indica a existência de um componente imunológico envolvido.

- Haveria nos autistas uma alteração no sistema imune, o que causaria uma alergia no início do desenvolvimento do feto. E a maioria dos que têm síndrome de Asperger é alérgica. Ele lembra ainda do estudo de Bacon Cohen, um psiquiatra inglês, que explicaria porque há uma maior incidência do autismo em meninos. De acordo com o trabalho, hemisfério direito do cérebro é ligado à intuição e o esquerdo ao raciocínio lógico. Em crianças normais, há um equilíbrio entre os dois lados, tanto nas meninas quanto nos meninos.

- No cérebro do autista foi constatado que há uma atividade maior no lado esquerdo, há um desequilíbrio. Fizemos um teste aqui no instituto e encontramos esse desequilíbrio, mas não sabemos como isso começa. Há também um estudo que aposta na ocitocina, um hormônio produzido na área do hipotálamo que regula as emoções e fortalece o vínculo de afeto natural entre mães e filhos. Testes mostraram que, quando ele é usado artificialmente em autistas, há um aumento na confiança da criança em outras pessoas. Tratamentos à base de ocitocina ainda estão em fase experimental, mas é mais uma esperança para médicos e pais.

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CRIANÇAS OBESAS JÁ APRESENTAM RISCO MAIOR DE DOENÇAS CARDÍACAS

Crianças obesas ou com sobrepeso já apresentam sinais de inflamação que estão associados a um maior risco de doença cardíaca em adultos. A conclusão é de um estudo que avaliou 16.335 crianças entre um e 17 anos. As que estavam obesas apresentavam níveis altos da proteína C-reativa (PCR), marcador que se eleva em processos inflamatórios e infecciosos. Os resultados foram publicados na "Pediatrics".

Nos adultos, níveis elevados dessa proteína indicam um maior risco de desenvolvimento de aterosclerose (formação de placas de gordura que leva ao entupimento das artérias). Encontrar esse marcador aumentado em crianças, em uma fase tão precoce, é um fator que preocupa os especialistas. A PCR elevada aumenta o risco de um infarto precoce, por exemplo.

No estudo, 42% das crianças entre três e cinco anos que eram obesas tinham níveis elevados de PCR, em comparação com 17% daquelas que tinham o peso normal. Essas diferenças eram ainda maiores entre as crianças mais velhas: 83% das muito obesas (dos 15 aos 17 anos) apresentaram níveis elevados do marcador.

"A PCR é um dos marcadores de presença de inflamação crônica mais validados. Ela pode aparecer em outras inflamações momentâneas [como uma inflamação dos dentes], mas é um marcador razoável", afirma a cardiologista pediátrica Isabela de Carlos Giuliano, professora-adjunta do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Santa Catarina.

Outros trabalhos

Em trabalho semelhante feito em Florianópolis, com 1.009 crianças entre sete e 18 anos, a professora Giuliano descobriu que 25% delas estavam acima do peso e apresentavam níveis alterados da proteína.

Segundo ela, o ideal é manter os níveis de PRC abaixo de 1 mg/l. Índices acima de 1 mg/l apontam risco moderado e acima de 3 mg/l indicam risco alto de problemas cardiovasculares.

Outro estudo brasileiro, feito pela Universidade Federal da Bahia, mediu a dosagem de PCR em 500 adolescentes entre 11 e 17 anos -em torno de 30% dos que estavam obesos tinham a PCR elevada. O trabalho, feito pela cardiologista pediátrica Isabel Cristina Britto Guimarães, é mais um que reforça a importância do controle de peso ainda na infância.

"Não vamos sair medindo PCR indiscriminadamente como maneira de prevenção, mas a PCR é mais um marcador importante", diz Guimarães.

O Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo usa a PCR como marcador para acompanhar o tratamento de reeducação alimentar de crianças gordas. A parte boa nisso tudo é que é possível diminuir os níveis de PCR se a inflamação for descoberta cedo. Para isso, basta aliar a prática de atividades físicas com uma dieta balanceada.

"Nessa faixa etária, o problema ainda é reversível. Mas é preciso participação efetiva dos pais, porque uma criança não perde peso se os pais forem gordos", diz Ary Lopes Cardoso, nutrólogo e chefe da Unidade de Nutrologia do instituto.

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BRASIL TEEM MAIS 500 MIL NOVOS CASOS DE CATARATA POR ANO E SÓ TRATA METADE

A catarata, uma doença tratável e reversível, é a principal causa de cegueira no mundo e em nosso país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 48% das pessoas que deixam de enxergar são portadoras de catarata. O problema é que quase a metade dos cidadãos brasileiros que precisa de tratamento para esse problema não o encontra no Sistema Único de Saúde. A catarata é a opacificação do cristalino, uma estrutura que fica dentro do olho humano e funciona como uma lente que ajuda a focalização das imagens. Essa lente natural contém uma mistura de líquidos e proteínas que permitem a passagem da luz, e o ajuste do foco é feito por meio de modificações na sua forma, comandadas por músculos de dentro do olho.

Com o envelhecimento, e pela ação de fatores externos, as proteínas dentro do cristalino começam a formar grumos (grãos minúsculos), o que impede a passagem da luz, comprometendo a capacidade visual dos indivíduos. Além da passagem do tempo, a exposição aos raios ultra-violeta, doenças como diabetes e colesterol alto, tabagismo e uso excessivo de álcool contribuem para o surgimento da catarata.

O cristalino que vai ficando opaco causa uma diminuição progressiva da visão com um borramento inicial das imagens que vai progredindo. As cores vão ficando menos nítidas até que a pessoa não enxergue mais.

O tratamento, inicialmente, pode ser feito com lentes corretivas – que vão se tornando cada vez mais potentes –, porém a solução é cirúrgica. A retirada do cristalino que deixou de ser transparente e a colocação de uma lente dentro do olho consegue reparar a visão, muitas vezes de forma total.

O problema está na falta de disponibilidade desse tratamento na rede pública de saúde. O próprio Ministério da Saúde registra algo em torno de 500 mil novos casos de catarata por ano e realiza somente cerca de 250 mil cirurgias, deixando a cada ano metade dos pacientes para trás.

O índice brasileiro de tratamento de catarata é de 2 cirurgias para cada mil habitantes. A OMS estabeleceu como meta que fossem realizadas pelo menos 3 cirurgias para cada mil habitantes a cada ano. Por essa conta simples, podemos avaliar a demanda reprimida que vai se acumulando a cada ano que passa.

Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que somente 60% dos tratamentos necessários são realizados. Se levarmos em conta que somente foram listados pacientes com catarata avançada, se todos os pacientes que deveriam ser tratados fossem avaliados, o déficit se mostraria ainda maior.

No setor da saúde suplementar, as cirurgias de catarata estão na lista de procedimentos cobertos e são realizadas habitualmente em uma frequência muito maior do que no setor público, gerando mais uma distorção do nosso sistema de saúde como um todo.

Diante do envelhecimento da população brasileira, comprovado por dados do IBGE, os números da catarata mostram claramente que os desafios que vêm junto com o aumento da expectativa de vida só tendem a crescer no país.


EXERCÍCIO PODE AJUDAR CÉREBRO DE EPILÉTICO

Correr na esteira por uma hora ao dia ajuda a proteger o cérebro epiléptico. Estudos feitos com ratos na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostram que as crises da doença podem cair até 50% com a prática de exercício físico. "O mecanismo neurológico exato não é totalmente conhecido, mas já temos vários indícios", disse o pesquisador Ricardo Mario Arida, que há 20 anos estuda o tema no Departamento de Fisiologia daquela universidade paulista. A epilepsia atinge de 2% a 4% da população dos países pobres.

Os resultados obtidos por Arida, que foram divulgados anteontem durante a 23ª Reunião Anual da Fesbe (Federação de Sociedade de Biologia Experimental), conseguiram medir o aumento da taxa metabólica cerebral em duas partes específicas do cérebro, o colículo inferior e o córtex auditivo.

"Ambas estão relacionadas com o sistema de alerta e vigilância", afirmou Arida. Além do indício elétrico, os trabalhos, segundo o pesquisador -que é formado em educação física-, também detectaram um aumento na liberação de neurotransmissores no cérebro epiléptico. É todo um conjunto de fatores, de acordo com Arida, que faz o cérebro do animal com epilepsia induzida ter uma plasticidade diferente e ficar mais atento.

"Também detectamos uma presença maior da proteína parvalbumina no cérebro dos roedores que faziam atividade física", disse o pesquisador da Unifesp. Essa proteína ajuda o sistema de proteção do cérebro. As medições feitas nos ratos epilépticos indicam que não foi apenas o número de crises que caiu. No modelo em questão, o de epilepsia do lobo temporal -a variedade da doença mais resistente aos medicamentos convencionais-, o chamado limiar do cérebro contra a doença também subiu. "As crises começam mais tarde nos animais treinados", afirmou.

De acordo com Arida, apesar de os estudos com seres humanos ainda serem incipientes, já é possível prescrever atividade física aeróbica para portadores de epilepsia. "É preciso que os médicos criem essa cultura. Mas não podemos dizer que o exercício físico é uma alternativa ao tratamento convencional. Ele é uma atividade complementar", disse.

Até os anos 1990, afirmou Arida, as instituições internacionais de estudo de epilepsia eram contra a prática de atividade física. "Mas agora, a não ser em casos muito extremos, como no alpinismo, é totalmente viável a atividade física na vida de um epiléptico. O risco de uma nova crise é real, mas existe um ganho até psicológico muito grande." (23/08/08)

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